Não desperdices tempo

Pintura a aguarela | Wellington 26 de Abril 2020

Pela primeira vez em muito tempo, tens tempo. Não é que o quisesses. Lá nos teus desabafos de quem atira para o ar algum desejo, só querias ter um tempinho (coisa pouca), como quem pode colocar pausa no relógio universal para conseguir respirar, sem dares oportunidade ao ponteiro avançar para mais um e-mail cair na tua caixa de entrada.

Pela primeira vez em muito tempo, tens tempo. Para fazeres as tuas coisas. Para parares e repensares a rotina que te consumia. Na tua vida corrida, em que só pedias para teres uma semana em casa (oh privilégio), só para não enfrentares, mais um dia, aquele colega de trabalho que já não consegues ver nem pintado de amarelo. Tens tempo para ter um almoço em paz. Não perdes horas no trânsito. Já não tens de correr ao supermercado comprar alguma coisa rápida para o jantar. Já não estás preocupado em fazer as marmitas para o dia seguinte. Em outros tempos, era tarde, não conseguiste ir ao ginásio, e estavas com o frigorífico vazio. Bolas, não tiveste tempo de ir às compras.

Esse desejo, que um dia te passou pela cabeça em desespero, foi-te concedido sem esperares. Um desejo de querer sem querer. Dizem que os presentes inesperados são os melhores. Já agradeceste? Foste obrigado a ter tempo. Em outros tempos, ter tempo era um luxo. Agora, foi-te oferecido esse luxo. Como reages a ele?

Como tudo na vida de um português, depois de lhe ser oferecido este luxo, é capaz de se queixar porque recebeu tempo! Há ambiguidades na vida que nunca iremos entender.

Tens finalmente tempo. E já que o tens, aproveita-o. Parece uma premissa básica, mas não é. Principalmente para quem toma tudo como garantido, é mal-agradecido à vida, ou anda desligado de si, dos outros, do mundo. Não descartes este luxo como se de uma casca de banana se tratasse. Agarra a oportunidade única que tens em mãos para fazeres tudo aquilo que um dia sonhaste, ou procrastinaste, ou adiaste. O pior que pode acontecer é saíres desta quarentena igual ao que eras quando tudo começou. A querer uma vida que nunca passou de uma idealização. Nunca passou dos pensamentos das oito da noite à saída do trabalho ou das três da manhã quando calhava teres insónias. Se assim o fizeres, desperdiçaste vida. Desperdiçaste tempo.

Explora a tua criatividade, destralha, aprende novas receitas, olha para o teu ego, conversa com os teus amigos, parceiro, ou com o teu filho adolescente, começa uma nova rotina, brinca com as tuas crianças, lê lê lê, questiona-te, passa mais tempo offline, olha para a tua vida em vez de te dedicares ao scroll da vida dos outros, arruma aquele armário que até tens medo de abrir a porta, está presente, ou pinta com aguarelas. Só não te acomodes. Não te acomodes a uma vida em que é preferível não pensar, porque é mais fácil invejar. O tempo não volta atrás.

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